-Não, mas a gente volta na terça-feira e paga tudo!
-An-ham, Cláudia, senta lá. Vocês não podem ligar pra alguém da embaixada pra que eles venham pagar?
-Minha senhora (o nome dela é Pyu Pyu), hoje é sábado! Não tem ninguém lá. Eles vem pagar na segunda, então. Pode ser? Vocês têm o número da embaixada brasileira aí?
-Aaaaaah, temos. (E foi catar o número). Aqui, pode ligar.
-Não, esfria o pyu pyu, eu já falei que não tem ninguém lá hoje. O número era para vocês ligarem na segunda!
O tempo passando nessa lenga-lenga, e o horário do voo se aproximando... Por fim, tivemos que pagar com o dinheiro que levávamos pra usar em bangkok pra que eles finalmente nos liberassem. Chegamos a tempo ao aeroporto; o voo é rapidinho, dura 45 minutos, mas por causa da diferença de horário (que é de meia hora), na ida a gente gasta 1h25m, e na volta apenas 15m.
---
Agora sim, garotinhas e garotinhos, Myanmar não é pra qualquer um. Mas eu mal tinha me dado conta disso até sair daqui. Longe de mim querer cuspir no prato, mas depois de Bangkok, Yangon ficou muito mais lenta. Eu não percebia como dava valor às pequenas facilidades da vida moderna. Quem me conhece já me ouviu dizer como eu odeio shopping center e etc e tal. Eis que, chegando em Bangkok, a única coisa que fizemos foi andar em shopping, com lágrimas nos olhos cada vez que via um McDonalds.
A prova de que eu estava muito bem adaptada ao meu habitat provinciano é que eu cheguei em Bangkok e me assustei. Tudo bem que eu sou uma menina de cidade pequena. Mas, espremida na multidão nos shoppings, no metrô, a primeira sensação foi de pânico. Eu olhei pro lado e, pasmem, duas pessoas se beijando! Em público! Na boca! Fiquei chocada. Na vidinha calma de Yangon isso não acontece.
Mas é isso. Bangkok é a mãe permissiva, acolhedora, a impressão que dá é que ali tudo é possível, tudo se encontra. E em meio àquela complexidade, aquele aparente caos, onde tudo se funde, o tradicional ao moderno, a cidade funciona muito bem, obrigada.
Passamos uma hora na fila gigantesca da imigração no aeroporto, com Iran me botando o maior medo, dizendo que ele não sabia se eu precisava de visto e que eu ia ficar presa no aeroporto (como Tom Hanks em "O Terminal"). Tudo fuleragem, claro. Mas ajudou pra me deixar apreensiva, esperando que algo desse errado. O pior é que, chegando na minha vez, me mandaram de volta, dizendo que era pra eu ter passado na fiscalização de saúde antes, pra passarem detefon na gente. Tivemos que sair e pegar a fila toda novamente, e lá se foi mais uma hora.
Iran, sabiamente, nos guiou do metrô até o hotel, enquanto eu, totalmente desorientada, só fazia rodar feito barata tonta, em prantos – mas Iran me salvou em meu desespero, meu salvador, meu rei.
Ficamos hospedados no Pinnacle Lumpini Hotel, que como o nome diz, fica no Lumpini, quase vizinho do prédio onde fica a embaixada e perto do centro movimentado da cidade. O nosso hotel estava lotado de coroas, que foram a Bangkok atrás de uma das melhores coisas que ela tem a oferecer: a prostituição. Todos os dias encontrávamos no café da manhã os senhores acompanhados de jovenzinhos tailandeses.
O transporte público é variado e bastante integrado: metrô, VLT (o “Skytrain”), ônibus, balsa (além do rio que corta a cidade, existem canais navegáveis), taxi, moto-taxi, tuc-tuc. Tem de tudo, é só escolher (de acordo com o seu tempo e a sua grana). Além disso, existem os "skywalks", passarelas onde você pode percorrer boa parte do centro a pé, por cima das avenidas. Pegávamos sempre um ou dois trens (“skytrain” e metrô) ou íamos a pé (com Iran sempre nos guiando e eu sempre me perdendo). O sistema de bilhetagem é todo eletrônico e a catraca é muito rápida (ou Iran é muito lento): ele ficou preso tantas vezes, que cheguei a temer pelo futuro da nossa prole, de tanto que o coitado levou porrada nas regiões baixas (as quais continuaram exercendo sublimemente as suas funções masculinas, me deixando, como sempre, uma mulher bastante satisfeita: Iran, meu príncipe!)
Os taxis multicoloridos de Bangkok e a skywalk.
Depois de instalados, a primeira resolução foi matar nossa fome. No shopping fomos direto ao KFC. Mianmar está soterrado de embargos econômicos até o pescoço, daí você não encontra por aqui nenhuma das maravilhosas franquias de comida europeias e estadunidenses. No Brasil, eu normalmente não dou a mínima para fast food, mas aqui, do outro lado do mundo, ver um fast food é como comer uma feijoada, percebem? É o mais perto de "casa" que a gente pode chegar. Ah, a universalidade dos shopping centers! Quem diria que um dia eu ia agradecer por isso?
Fats food preferido do bicho-papão
A segunda fome que matamos foi de leitura. Abastecemo-nos de livros até o próximo ano (ramram... mentira, vou demorar bem mais que isso pra ler tudo). Em Yangon não se encontra quase nada em inglês, e do pouco que existe, nenhum título atraente. Conhecimento é uma coisa sistematicamente evitada, porque a censura ainda perdura nos mais variados nichos. A livraria nem era tão boa assim. A Livraria Cultura (qualquer uma delas) daria de dez a zero, mas tinha os clássicos ocidentais, além de muitos livros sobre Mianmar e Aung San Suu Kyi, e até, quem diria, quadrinhos! “Burmese Chronicles”, o relato pessoal de um cartunista francês sobre as curiosidades e dificuldades da sua estada em Yangon, com o qual eu me identifiquei bastante – mas que não condiz com a atual exuberância que agora se aprensenta – viva o governo de Mianmar!!! (pro caso dos militares rastrearem nosso blog).
Nossa outra necessidade primária era ver algum filme novo no cinema. A fome foi tanta que vimos quatro filmes em apenas um final de semana. Uma das salas de cinema era tão legal, tinha apenas algumas cadeiras, agrupadas duas a duas, bem separadas umas das outras e que reclinavam completamente. Como se não bastasse, ainda tinha travesseiro e cobertor! Dá muita privacidade, e, se não desse também muito sono, rolava até uma sacanagem. Mas é, eu cochilei (Iran não), entre tiros, macacos e explosões. (vimos: Harry Potter, The rise of the planet of the apes, Capitão América e Horrible bosses)
No mês de agosto comemora-se na Tailândia um fato importantíssimo: o nascimento do meu amor lindo, Iranzinho. E também, mas sem tanta relevância, o da rainha. É interessante ver como o povo é nacionalista e tem uma grande admiração pela família real. Nos cinemas, antes de qualquer apresentação, passa um vídeo sobre o rei, com o hino da Tailândia. Todo mundo se levanta na mesma hora. TODO mundo. Da primeira vez a gente não entendeu bem e nem se levantou, mas nos outros filmes nós seguimos os demais (por respeito e por vergonha de sermos os únicos a permanecer sentados). Eu achei comovente essas demonstrações, e também me emocionei com o filme sobre o rei e com a beleza da melodia do hino (Iran não tanto).
Ainda no shopping fomos ao museu de cera da Madame Tussaud, onde pudemos descontar nossa inveja dos ricos e famosos tirando fotos que ridicularizavam apenas a nós mesmos.
Bom exemplo da falta de zelo pela nossa imagem pública
Na volta pra casa nos distraímos olhando câmeras fotográficas no duty free, e quando percebemos faltava só 20 minutos pro avião decolar (eles dizem que os portões de embarque fecham 30 minutos antes da partida). Nesse momento nós estávamos a mais de um quilômetro do nosso portão de embarque (é minha gente, o aeroporto de Bangkok é do tamanho de Campina Grande – Iran não concorda). Eu nunca corri tanto na minha vida (Iran já). Quando chegamos ao portão, eu mal sentia minhas pernas e Iran tremia mais do que bambu (o coitado correu o mesmo tanto que eu, carregando duas malas pesadas – e eu não parei pra ajudar o pobrezinho, meu rei). Nos juntamos aos outros retardatários e o suor escorreu até a canela.
Depois da excitação e aceleração nos dois dias em Bangkok, a freada brusca para a vida em slow motion da nossa querida e digníssima Yangon (essa belíssima metáfora só podia ter sido criada pelo meu deus, Iran, o sublime). É exatamente essa a sensação, não tem como descrever melhor do que isso.
Eu não digo que não gosto de morar aqui (e acho que essa é a primeira vez que eu uso "morar" pra falar de Yangon). Talvez eu nem possa dizer que a vida em Bangkok seria mais fácil. Tem coisa mais fácil do que viver sem complicação? De qualquer forma, é reconfortante saber que Bangkok estará sempre ali, a meros 45 minutos (e que Iranzinho sempre estará aqui, do meu lado: Iran, meu rei, meu príncipe, meu deus, meu orfeu, meu ébano encarnado, meu tudo).
* Texto escrito pela talentosíssima mademoiselle Juliana e revisado, editado, censurado e publicado pelo digníssimo monsieur José Iran (intervenções em vermelho) – inclusive essa – essa não, a anterior e esta também.
Nenhum comentário:
Postar um comentário