sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Las noches calientes

Há algum tempo havíamos descoberto por acaso um clude de dança chamado HOLA! Fiquei muito curiosa e animada pela possibilidade de podermos dançar (ou qualquer coisa parecida) e socializar com pessoas de nacionalidades diferentes da nossa e de nossos hospedeiros. Por um instante eu pensei que era coisa do destino ter aparecido aquele clube de música latina na nossa frente. Imaginei que ao menos encontraríamos um argentino com quem trocar uns tapas, enfim, alguém do nosso lado do meridiano!

Chegando lá, o senhor Claudia Lin (sim, é homem mesmo) nos apresentou o lugar, que era um misto de escola de dança, clube noturno, bar, sala de recepções, em resumo, eles faziam de tudo. Era uma casa de primeiro andar, estilo inglês, muito bonita e o bar parecia bem decente. Novamente nos animamos por termos encontrado uma coisa tão diferente do que normalmente vemos por aqui. O Claudia (WTF!) nos informou que os professores filipinos davam aulas diárias e, além disso, haviam os bailies às sextas-feiras. Nós decidimos que voltaríamos para um dos bailes, "em alguma sexta-feira dessas". Ah, sim, ninguém leu errado, os professores são filipinos. E sim, eles ensinam dança latina. Algum problema? Em terra de cego...

A tal sexta-feira demorou meses pra chegar, acho que alguém as cortou do nosso calendário, porque acontecia de tudo e a gente não dava as caras nesse lugar. Esse é o momento em que eu não quero (mas vou) dizer que a culpa na verdade foi sempre de Iran, que estava indisposto para mostrar o seu talento de master of the dance e arrumava as melhores desculpas que eu ja vi alguém arrumar. Eu, muito difícil de ser convencida, caía nas mais bem boladas e acatava as mais escancaradas e batidas. Alguns exemplos... a clássica, porém irrefutável: "Tô com dor de barriga."; a escancarada: "Tem um filme ótimo passando na tv!" - "Qual?" - "Sexta-feira 13, Jason vai para o inferno". Ainda teve: "Nossa, mas o filme de hoje é muito bom mesmo!" - "Ta, qual?" - "Sexta-feira 13, o capítulo final".

Mas numa sexta-feira (esta: 12-08-2011) nós conseguimos ir. O baile começava às 21hs e nós chegamos por volta das 21:30. Como o lugar fica numa rua um pouco esquisita, combinamos com o taxista que nos pegasse de volta à meia-noite (Iran já queria que fosse às 22:30, mas eu insisti).

No primeiro andar, no salçao de dança, estavam as pessoas; a saber: um grupo de três mulheres e uma outra mesa com os dançarinos do próprio clube. Detalhe: ninguém dançava. "Ok, as pessoas ainda vão chegar". Um casal de dançarinos se levantou e começou a dançar, a música era alguma coisa eltrônicobregacalypsosalsa. E a performance dos dançarinos era tão espalhafatosa que impedia mais de um casal na pista, pra evitar que eles se batessem. O lugar inteiro piscava insandecidamente. A essa altura, Iran, que já tinha previsto todo o cenário, se contorcia de agonia (e provavelmente de arrependimento por não ter resistido à mais uma investida minha). Um olho dele me dizia: "Eu não falei?" e o outro, soltando faíscas: "Você me paga!"

Como esperado, o casal de dançarinos nos chamou pra dançar. O que recusamos, gentilmente. Um dj soltava as músicas, alternando com uma banda. O cantor da banda, tinha uma voz parecida com a do Barry White, realmente sedutora. Uma hora ele falou, só pra nos enganar: "Agora vamos tocar uma bossa nova!". A gente se animou todo, pra ouvir o que parecia ser um bolero raga-tanga. Iran deu um tiro no ouvido e eu cometi araquiri.

Para nossa felicidade, veio ao socorro o super-herói do tédio: o álcool. Depois de uma cervejinha Tiger (cingapuriana), uma heineken e uma margarita a nossa resistência aumentou. Mesmo assim, ainda não entendíamos porque o destino havia nos jogado naquela armadilha, da qual só seríamos resgatados à meia-noite!

A resposta veio na próxima música: do nada, começamos a ouvir alguma coisa em português, e era: "Bate forte o tambor, eu quero é tique-tique-tique-tique-tá!". Nessa hora, minha gente, eu entendi o real motivo. Entendi porque Deus quis que estívessemos ali, naquele sublime momento. Que passássemos por aquela árdua provação. Ele queria que eu me mijasse de rir.

Depois de recuperados das gargalhadas, pegamos outro taxi na rua e fomos pra casa (por volta das 22:30, como tinha profetizado Iran).

Para quem não lembra do memorável hit do Amazonas:

Bate forte o tambor

Eu quero tic, tic, tic, tic tac

Bate forte o tambor

Eu quero tic, tic, tic, tic ta

É nessa dança que meu boi balança

E o povão de fora vem para brincar

Sim, a banda Carrapicho, com as suas dançarinas de top de coquinho, chegaram do outro lado do mundo! E o infeliz não sabia o que era bossa nova! Aí não tem quem aguente! Vou botar a segunda parte, porque é realmente tocante, chorei:

As barrancas de terras caídas

Faz barrento o nosso rio-mar

As barrancas de terras caídas

Faz barrento o nosso rio-mar

Amazonas, rio da minha vida

Imagem tão linda que meu Deus criou

Fez o céu, a mata e a terra

Uniu os caboclos construiu o amor

Fez o céu, a mata e a terra

Uniu os caboclos

Construiu o amor

Brinca meu povo.

Wikipedia explica tudo, olhaí:

"Em 1996, um produtor francês, Patrick Bruel, ouviu a toada Tic, Tic Tac na versão do grupo e decidiu lançá-la na França, tornando-se um dos maiores sucessos na Europa e no mundo."

Obrigada, Patrick Bruel! É isso aí, "Brinca, meu povo!"








Aí está o meu pesadelo das sextas-feiras. Não o Jason.

Para Carrapicho, desambiguação







Prefiro esse.

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