quarta-feira, 13 de julho de 2011

Primeiras impressões de Yangon (ou, para alguns, Sobre “o buraco que fui me meter”)

Pousei em Yangon ás 09:20 am, desidratada de tanto suar, os pés escorregando dentro dos sapatos. Depois de sair do corredor sem saídas que nos conduz á área de imigração, já encontro Iran. De cima da escada rolante, eu o vi lá embaixo, todo atento, me esperando. Com mais dentes na boca do que eu me lembrava. Nessa hora deu vontade de sair voando e atravessar o vidro que nos separava, sem pegar mala nem nada. Um mês é muito na nossa contagem de tempo. Tudo muito rápido e eficiente, em instantes estávamos no carro com o motorista da embaixada, o Sr. Welin Ton (pois é, herança da colonização britânica).

A caminho do Sedona Hotel, já pude ir percebendo a cidade, que para mim levou rótulo de “micro-caos”, foi a primeira expressão que me veio à cabeça quando Iran me perguntou. A cidade tem uma aparência de descaso e abandono, com muitos contrastes, claro. A desigualdade é esfregada na sua cara por todos os lados. Por todo lado também, a religiosidade, a calma, e o orgulho em ser a, auto-intitulada, “Golden Land”, com seus templos budistas Theravada, recobertos em ouro.

O hotel é muito bonito e confortável (obrigada, Itamaraty), e tem de tudo que se precisa para uma vida confortável, no ocidente, no oriente, ou na baixa da égua (Ta bom, mãe? Vê se para de se preocupar, não vou morrer de infecção intestinal). Já no hotel, fui tirar o meu grude acumulado de dois dias e depois fomos fazer sexo feito coelhos adolescen... quer dizer... fomos treinar meditação Vipassana – altamente recomendado. Como eu falei, um mês é muita coisa, minha gente.

As pessoas no hotel, extremamente simpáticas, uma simpatia que chega assusta, não param de sorrir um minuto sequer. Depois fomos almoçar num restaurante perto da embaixada e comi a minha primeira refeição tipicamente birmanesa. O prato com uma apresentação linda, de dar água na boca, era apenas arroz frito, com pasta de camarão, omelete birmanês e pimenta. A pimenta eu não aguentei depois de um tempo, e olhe que, sendo filha do meu pai, eu gosto muito de pimenta. Mas vocês não sabem como eles usam pimenta aqui, em tudo.

Depois fomos até a embaixada, instalada numa casa muito bonita, extremamente contrastante com o resto das edificações na mesma rua (ah, contrastes, é só o que se encontra por aqui, existem várias Yangons em uma mesma, é fascinante ir aprofundando-se nas camadas e conhecendo outras perspectivas, mais distantes da que nos é comum. A nossa Yangon, com certeza, é a casca. Permanecendo assim para a maioria dos turistas).

No fim da tarde, o clima parado e abafado, parecido com o de Manaus, (revelando a primeira mentira que Iran contou para me convencer a vir para Yangon, que dizia que o clima parecia com o de João Pessoa - 1x0) se transformou numa chuva tórrida, do nada. Com ventos fortíssimos e trovões estrondosos. Coisa de filme mesmo. O que é muito comum por aqui a essa época, por causa das Monções. Apesar de que, Iran falou que não havia chovido daquele jeito ainda, desde que ele tinha chegado. Como o crédito dele não está muito em alta, só acreditei quando o embaixador confirmou. O que encarei como uma belíssima recepção da natureza à minha pessoa. Tão vendo como eu sou otimista, minha gente? Fiquei ainda mais feliz quando o embaixador me informou que haviam acabado de instalar o para-raios, naquela mesma semana. Olhem a minha sorte! A tempestade acabou até a luz na embaixada, queimaram várias lâmpadas, uma beleza.

No jantar, terça-feira é noite de comida indiana. Que não combina muito comigo, pimenta demais, tempero demais. Mas, como vocês sabem, eu só não como pedra que é pra não quebrar os dentes. Comi de bom grado, enquanto eu aguentei.

Comecinho da noite, como profetizado, bateu aquele sono, porque o meu pobre relógio biológico não tá nem aí pra que horas são em Myanmar, não tá nem aí pro quanto que eu dormi no avião. Ele quer por que quer que eu durma, porque pra ele já são 3hs da manhã. Mas Iran me segurou acordada até umas 23hs, pra ir começando a me acostumar, até que eu apaguei.

(Escrito em 24 de maio de 2011, terça-feira)

Um comentário:

  1. Juliana e Iran, meus parabéns pelas excelentes e hilariantes narrativas das suas aventuras e desventuras nas terras orientais.

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